Artigos de: Emanuel Fernandes

A globalização do clima

O mundo caminha inevitavelmente para o estabelecimento de um conjunto de valores mundiais. Esse estabelecimento é inevitável, pois há uma crescente interação entre as pessoas que não se restringe às fronteiras dos Estados Nacionais. Uma das interações mais concretas é a física, ou seja, é a questão climática proporcionada pelo enorme incremento das populações humanas devido ao constante aumento da produtividade agrícola (e à disponibilização de mão de obra para a indústria e o serviço) e aos avanços da saúde (saneamento; conhecimento científico para a produção de fármacos e de serviços médicos, odontológicos, farmacêuticos, fisioterápicos, etc).
O enorme aumento da população implica aumento enorme do consumo de recursos naturais que, aliado ao tipo de economia baseada no uso crescente de energia não renovável, produz sérias preocupações com emissão de gases de efeito estufa. E isso afeta a vida das pessoas, independentemente do lugar onde elas moram. Além dessa interação física, temos a interação econômica propiciada e incrementada pela crescente divisão racional do trabalho e pela “conjunção” racional do consumo (ganho de escala).
Esse imbricamento econômico crescente acarreta interações entre pessoas em escala mundial. Um exemplo claro disso é a recente (2002) entrada da China na OMC. Isso fez com que, por um lado, aumentasse o preço das commodities, favorecendo os países exportadores de alimentos e minérios (o Brasil teve enorme ganho com isso e acumulou algumas centenas de bilhões de dólares em divisas). Mas, por outro lado, a entrada da China na OMC (com seus produtos industriais baratos devidos ao seu baixo custo de fatores) está desindustrializando boa parte dos outros países (principalmente o Brasil).
Ou seja, o imbricamento afeta diretamente as pessoas no mundo inteiro: tanto os consumidores, devido ao barateamento dos produtos consumidos quanto os produtores, com a melhoria de renda nos setores primários, mas com o desemprego na indústria. Além das interações física e econômica, temos uma interação cultural crescente propiciada pelas redes globais de comunicação (TV e internet) e pelo aumento do turismo mundial. A facilidade de divulgação de imagens, notícias e dados acarreta aumento da empatia das pessoas pelo que ocorre em qualquer parte do planeta. Essa interação cultural das redes globais ainda está em seu começo e terá influência enorme na construção do ethos mundial, do mesmo modo que processo civilizador foi influenciado pela invenção da impressão (para maiores detalhes sugiro 2 livros: “O processo civilizador”, de Norbert Elias, e “Os anjos bons da nossa natureza” de Steven Pinker).
Essas interações física, econômica e cultural tendem a estabelecer uma “cidadania mundial” e os atuais fóruns de debate mundial tendem a ficar cada vez mais complexos e mais importantes. A presença de todos os principais líderes mundiais na COP-21, que está ocorrendo em Paris, comprova isso. Essa complexidade e importância acarretarão governança mundial cada vez mais forte e os países deverão ter estratégias bem formuladas para defender os interesses de seus nacionais. Certamente, não teremos um “Presidente do Mundo”, mas os órgãos multilaterais tenderão a ser mais executivos e alguns países terão papel de liderança.
Uma boa estratégia de participar dessa liderança é a de mostrar sua importância no encaminhamento do diagnóstico e do prognóstico dos problemas mundiais. Certamente, o jogo diplomático é fundamental nesse aspecto, mas gostaria de pontuar a importância das atividades espaciais como “trunfos” para essa estratégia.
O Brasil tem satélites, dados, tecnologias de processamento de dados para estudos de desflorestamento, de mudanças climáticas, etc.
Além disso, já somos um centro previsor mundial de tempo e de clima através do CPTEC e estamos nos integrando cada vez mais à previsão de clima espacial. Fazer parte dessa rede mundial de diagnósticos e prognósticos é um bom “trunfo” para se sentar à mesa das negociações globais.

Emanuel Fernandes
É ex-deputado federal e ex-prefeito de São José
emanuel.fernandes@ovale.com.br

O futuro e o sonho

Tenho repetido, metaforicamente, que deveríamos nos guiar, em sociedade, por dois princípios básicos: primeiro, “toda criança tem o direito de sonhar e nenhum adulto (da família ou da sociedade) deve cercear os seus sonhos”; e segundo, “se algum jovem não quiser perseguir seus sonhos, esse é um problema dele e ninguém deve tutelá-lo: ele é livre e dispõe de sua vida como quiser. Porém, se ele quiser perseguir seus sonhos, esse é um problema nosso (de todos)”.
A razão para o primeiro princípio é a de que, embora a família e a sociedade procurem ajustar a criança à cultura do processo civilizatório (o que chamamos de “ter um filho com educação”), na grande parte das vezes esse processo também reprime os seus sonhos e as suas potencialidades. Muitas vezes, essa “repressão” é feita na melhor das intenções: o adulto tutor tem medo de que a criança quebre a cara com os seus sonhos.
Isso precisa ser mudado, pois é importante para a criança e a sociedade que as crianças alimentem seus sonhos.
Esse medo é desmedido, já que a criança vai adaptando seus sonhos na medida em que percebe quais sonhos são possíveis de alcançar com suas habilidades e talentos.
Esse é um processo de tentativa-e–erro é próprio do viver. Cada criança tem o direito de sonhar e uma sociedade que quer se desenvolver precisa de gente que sonhe. Então, sonhar é um bem coletivo.
O segundo princípio aborda dois aspectos da vida: o que é de natureza privada (individual) e o que é de natureza coletiva. O primeiro aspecto é o de que cada um tem o direito de fazer de sua vida o que bem quiser e esse é um direito inalienável. A vida é única e temporária e cada um dispõe dela do jeito que quiser.
Porém, sonhar e perseguir seus sonhos ultrapassam a esfera individual, pois isso tem imbricações com outras pessoas. Quando se tenta alcançar um sonho, ultrapassa-se a circularidade da vida (tocar o dia a dia, levar a vida como ela é).
Tenta-se construir amanhã diferente do hoje e do ontem; rompe-se a inércia da vida. Chamo a isso de apropriação do futuro e é isso o que promove o desenvolvimento (ou a regressão) da sociedade. O natural, o inercial da história do mundo somente é modificado quando alguém tenta romper a circularidade da vida. É a força, por assim dizer, que acelera (ou desacelera) uniformidade inercial da natureza e seus acasos. A apropriação do futuro é modificação do amanhã esperado. Porém, o amanhã também é esperado por outras pessoas (tanto em nível micro quanto em nível macrossocial).
Há, portanto, uma imbricação e, consequentemente, perturbações da circularidade da vida de outras pessoas. Essa questão da apropriação do futuro é complexa e profunda. Ela tem a ver com questões filosóficas fundamentais, a começar pelo debate do que é a vida. Mas ficando em nível político, acredito que é importante se compreender que o incentivo à criança sonhar e ao jovem perseguir os seus sonhos é fundamental para o desenvolvimento da sociedade. Certamente, devemos nos precaver de que os sonhos podem nos conduzir a utopias inconsequentes ou a modificações da sociedade para pior, mas o risco vale a pena.
Se todos resolvêssemos viver simplesmente a circularidade da vida, estaríamos vivendo na mesmice ou, o que é pior, tenderíamos a viver cada vez pior haja visto que a entropia tende a aumentar e a degradar o que já havíamos construído.
As pessoas que procuram se apropriar do futuro são necessárias para que vivamos amanhã melhor do que o hoje. Essas pessoas “produzem” mais do que “consomem”, pois o restante da parte do seu “consumo” é feito desse sentimento de apropriação. É como se elas gostassem de se alimentar, hoje, da sensação do domínio e do rompimento do tempo.
Essas reflexões me remetem à atual situação do Brasil. Perdemos o roteiro do desenvolvimento do país, pois acreditamos que os governos, que são Pessoas Jurídicas, irão construir o futuro. Pessoas Jurídicas não sonham nem perseguem os seus sonhos; elas são fictícias no exato sentido da palavra. Um país se desenvolve com os sonhos e os esforços para alcançar esses sonhos de cada um dos seus cidadãos.

Ações se sobrepõem às palavras

As pessoas estão vivendo cada vez mais tempo. No Brasil, a expectativa de vida ao nascer era de apenas 43 anos, segundo o Censo demográfico de 1950. No censo de 2010, esse número subiu para 73,5 anos, ou seja, quase 70% maior em relação à metade do século 20. Dentre os fatores contribuintes para o crescimento da expectativa de vida destacam-se as melhores condições de higiene e saúde.
O saneamento e os novos hábitos higiênicos ajudaram muito a ampliar essa expectativa. Na área da saúde, destacam-se os avanços da medicina (novos remédios, novos métodos de diagnósticos, avanços científicos, etc) e a ampliação do acesso aos serviços de saúde, como médicos, dentistas, enfermeiros, terapeutas, tecnólogos, técnicos, entre outros. O fato é que esses avanços se devem a uma maior importância que as pessoas dão à sua saúde, o que naturalmente reflete num dispêndio crescente com essa área, tanto no atendimento privado/corporativo, quanto no sistema público.
Para as pessoas sem condições de pagar pelo sistema privado/corporativo, nós temos o SUS (Sistema Único de Saúde), que demanda recursos públicos crescentes das administrações. Em qualquer pesquisa sobre as prioridades de governo, destaca-se a alocação de recursos para a saúde como principal reivindicação da população. Aqui em São José não é diferente. Nas várias reuniões que fizemos em diversas regiões da cidade, constatei através de um questionamento direto: a Saúde é a nossa principal prioridade, independentemente de bairro ou região.
Durante a última eleição municipal, a questão da Saúde também era prioridade.
Nós sabíamos que os governos do PSDB na cidade haviam avançado bastante, mas não na mesma proporção que nas outras áreas e que em um eventual novo governo iríamos ampliar ainda mais os investimentos para o setor.
Ressaltávamos também que o novo Hospital Regional, mantido pelo Governo do Estado, iria ajudar e muito no avanço necessário aos serviços de Saúde prestados pelo SUS.
Tínhamos não só um caminho claro, mas também uma prioridade clara: a necessidade de melhorar a Saúde, pois essa era a vontade da maioria da população.
O que nós temos hoje é que a população continua a priorizar a Saúde ainda mais.
Pelos dados que dispomos, o percentual que se destina à Saúde com relação ao Orçamento não só não aumentou, como é premente, mas registrou queda. E isso, naturalmente, se reflete na opinião dos usuários do SUS.
O ex-prefeito Eduardo Cury (PSDB) aplicou no setor em 2012, último ano de seu segundo mandato, 30,3%, das receitas municipais em Saúde.
Em 2013, esse percentual foi de 27,9% e no ano passado registrou um índice de 28,7%, de acordo com relatórios de execução orçamentária do Tribunal de Contas do Estado.
Para o próximo ano, segundo a proposta orçamentária enviada pela prefeitura para a Câmara, esse número é ainda menor. A previsão é de que a participação da Saúde no bolo orçamentário seja de 25,4%.
Se não pudemos aumentar os recursos para a Saúde, já que não vencemos as eleições na esfera municipal, continuamos a tentar melhorá-la no que estava ao nosso alcance.
No último dia 16 de setembro, o governo do Estado decidiu não mais esperar o financiamento do BNDES e iniciou a construção do Hospital Regional com recursos próprios, a despeito da difícil situação orçamentária decorrente da crise econômica brasileira.
Serão investidos R$ 217 milhões através de uma Parceria Público-Privada no Hospital Regional de São José dos Campos. Ele terá 178 leitos, sendo 44 deles de UTI. Esse investimento é muito importante, mas o que realmente mais importa é que ele será custeado pelo governo de São Paulo.
Serão dezenas de milhões de reais investidos no custeio da unidade que aumentarão os recursos e, consequentemente, os serviços da Saúde em benefício de nossa população.
O governador Geraldo Alckmin (PSDB) mostra com a sua decisão aquilo que sempre dissemos: prioridade a gente mostra na hora das dificuldades, quando as ações se sobrepõem às palavras.

A sombra da sombra é luz

Momentos sombrios irrigam a existência, assim como a água hidrata o ar. Limpar as sombras da vida pode ser tão imprudente quanto limpar as nuvens do céu. Fará falta uma boa chuva depois. Nem será o mesmo o velho sol.
Mas não gostamos das sombras. Elas têm cor de vazio e o vazio nos assusta. A natureza tem horror ao vazio. Então contamos histórias. Elas recheiam o vazio. Minto. Só elas recheiam o vazio. Na hora das sombras contamos histórias, compomos narrativas, trazemos lembranças, inventamos a memória.
Cada história esconde outra história, cada linha escrita revela o que não foi dito, algo que nem o autor sabia, porque é ao leitor que cabe a façanha de decifrar. A gente se escuta na voz do vizinho, se encontra no olhar do amigo, se entende na escritura do outro.
Passamos a vida ouvindo e contando histórias, no meio dos outros, porque só é possível haver uma história se existir alguém para contar e alguém para ouvir. Se a árvore no meio da mata cair sozinha, só produzirá história se houver alguém lá. Só quando existe alguém é que podemos dizer que somos humanos, porque a condição humana fundamental é a pluralidade.
Os outros com os quais vivemos e convivemos não são apenas espectadores. Eles são testemunhas. São eles que constituem e sustentam ao nosso lado aquilo que chamamos de realidade, a vida que vivemos, e até aquela de que temos de abrir mão. Sem o outro, tudo esfumaça. O que chamamos de existência brota do fato de os homens estarem aí, e só se sustenta enquanto se mantiverem aí. Ainda que outro seja nosso inferno –haja Sartre! – ainda assim será nosso sócio na mesma empresa humana. Graças a ele, a eles, nossas interpretações, desejos e modos de ser, nossa realidade, enfim, ganham densidade de existência.
Aprendemos com os outros: falando de nós, sobre o que somos, poderíamos ser ou deixar de ser. Crescemos ouvindo expectativas e atendendo solicitações. Vendo e significando o que fazem, procurando fazer o mesmo ou evitar, sempre do nosso modo, mas sempre referenciado. Somos únicos. Sim. O outro nos faz únicos.
A vida é sempre acompanhada. Ela vem carregada de sócios, amigos, inimigos, parceiros, adversários. Estaremos sempre em companhia, sustentando posições e aguentando críticas, mas juntos. Tudo o que fizermos unidos será muito melhor do que o melhor que conseguirmos fazer sozinhos. Porque a vida é uma trama de relações, um acontecimento compartilhado. E é isso que a torna um evento único.
Quando nascemos, a teia já estava aí. Ao nascer, alguém gritou: Chegou um novo tecelão. E nós passamos a tecer um pano novo. Nossa história fez parte da História. E a História, ela mesma, passou a ser o que é por causa da nossa história.
Como pode isso acontecer sem uma boa história? Não faz diferença onde comece. Às vezes, começa numa ponte caída. A ponte havia caído e ela teve de descer do ônibus. Foi aí que a ponte virou história, quando a beira da ponte serviu de santuário das decisões. A noite caía. À noite, ela chorou. E quando a estrela cadente riscou o céu, ela já tinha um pedido. Nunca soube querer. Nunca pode querer. Nunca quis querer. Essa era a primeira vez que algo dentro dela podia querer algo que viesse de dentro dela. Era, justamente, por isso que ela estava sentada à beira da ponte caída, depois da chuva, à noite, e sem ninguém.
Ela estava fugindo para algo melhor. A vida a chamava.
A cidade? Ficou para trás, no sopé da serra. De todas as lembranças, as melhores envolveram a serra que cercava sua vida. Tão verdes que, de longe, ficavam azuis. Azuis como o céu, como o manto da Virgem, como os olhos do pai. Azul. O mesmo que ela passaria a vida inteira buscando em todos os outros olhares.
Sentada na ponte caída, ela brincou com a lua, e descobriu que a sombra não mete medo, e que nem sempre a sombra é só sombra. Às vezes, a sombra da sombra é luz.
Se eu morrer, escrevam na lápide “Sob Protesto”. Uma judiação ter de ir embora deixando tantas histórias sem ouvir nem contar. Cada uma mais linda que a outra!

Renato Lôbo
é psicanalista em São José
renato.lobo@ovale.com.br

Os 54 anos do Inpe

O Inpe comemorou no final da semana passada seu aniversário de 54 anos. A cerimônia contou com a presença do ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo que, junto com o diretor do Inpe, Leonel Perondi, homenageou os servidores que completaram, neste ano, 35, 40 e 45 anos de atividades no Instituto.
Eu estava na cerimônia e percebi como o tempo passa rápido. Afinal, 45 anos de atividades nos remetem ao ano de 1970, época das missões Apolo. Sentindo-me da velha guarda (sou servidor do Inpe há 33 anos) recordei-me de frase que o Eduardo Simbalista, antigo diretor da então Globo Vale do Paraíba sempre usava a propósito de se sentir da velha guarda. Contava ele que nossa geração, que viveu a corrida espacial à Lua, quando fôssemos provocados por nossos filhos por sermos da velha guarda, poderíamos dizer: “Pois é, meu filho. Eu sou da velha guarda; sou antigo. Sou do tempo em que o homem ia à Lua”.
Ironia à parte, o fato é que foi uma época empolgante, cheia de conquistas tecnológi-cas mas de extraordinários dispêndios financeiros.
Conquistada a Lua, a pressão que a conquista do espaço pelos soviéticos havia posto no orgulho americano refreou e os dispêndios refluíram. Era hora, não de objetivos estratégicos somente, mas de mostrar ao contribuinte que o uso do espaço poderia render outros frutos à sociedade, pois plataformas espaciais têm a vantagem de “olhar” o globo terrestre e o espaço exterior em perspectiva. Assim, se já não vamos mais à Lua, outras conquistas foram alcançadas tanto pelos dois principais agentes da corrida espacial (EUA e a antiga URSS) quanto pelos outros países, aí incluído o Brasil.
No Brasil, o Inpe é o principal órgão civil que faz pesquisa, desenvolvimento e operação de atividades espaciais. Embora mais modestamente que as principais agências espaciais do mundo, o Inpe atua nas principais áreas das atividades espaciais, tendo feito importantes progressos nesses seus 54 anos de existência.
Atuamos na obtenção de artefatos de acesso ao espaço e na operação desses artefatos visando a obtenção de dados e serviços por eles propiciados e no desenvolvimento das aplicações espaciais a partir desses dados e serviços.
Na parte relativa ao acesso ao espaço, o Inpe possui uma área denominada engenharia e tecnologia espaciais, que já desenvolveu e construiu alguns satélites de coleta de dados e de observação da terra.
Além desses satélites, essa área de engenharia também desenvolve produtos, processos e serviços utilizados pela indústria. O LIT (Laboratório de Integração e Testes) é um exemplo disso: dezenas de indústrias utilizam seus laboratórios para qualificar seus produtos. Outro exemplo foi a assessoria fornecida por servidores do Inpe ao TSE para a implantação de nosso moderno sistema eletrônico de votação e apuração de votos.
Na parte relativa à operação, temos um moderno centro de rastreio e controle de satélites, além de um importante centro onde são armazenados os dados coletados pelos satélites. Na parte das aplicações espaciais, atuamos em 4 áreas: ciências espaciais e atmosféricas, meteorologia, sensoriamento remoto e ciências dos sistemas terrestres.
Na primeira área estudamos, além do espaço exterior, a física relativa ao globo terrestre e sua interação com o sol (ionosfera, magnetosfera, etc). Na área de meteorologia, temos como principal aplicação o nosso sistema de previsão numérica de tempo, o CPTEC, cuja competência nos coloca como centro de previsão mundial do tempo e do clima.
Na área de sensoriamento remoto, desenvolvemos importantes aplicações (software de processamento de imagens, detecção de queimadas, identificação de pistas de pouso clandestinas, identificação de desflorestamento, etc).
Na área das ciências dos sistemas terrestres, nós temos como destaque nossa importante participação nos estudos mundiais sobre as mudanças climáticas, base para as decisões nas Conferências Mundiais do Clima.
Por tudo isso, o Inpe e os seus servidores têm muito a comemorar por esses 54 anos de existência.

Emanuel Fernandes
é ex-deputado federal emanuel.fernandes@ovale.com.br

Se meu mundo cair

Há coisas que só experimentando pra saber. Por exemplo, cálculo renal. Tive um só e fiquei satisfeito. Inesquecível! Canal de dente: um espetáculo!
Síndrome do pânico, nem se diga. Tive uma, imaginem! Íamos para Maceió, o avião havia decolado de São Paulo e faria um pouso em Campinas. Só 15 minutos. Mas?
Eu comecei a suar frio. Um medo, um terror, um pânico. Fui apertando a mão de Sônia até a aliança marcar os dedos. Eu só pensava em pular fora assim que aterrissasse. Curiosamente, como já puderam observar, eu não contava com a possibilidade do avião cair. De jeito nenhum! O pensamento obsessivo era de que eu iria apear em Campinas, jamais que o avião pudesse cair.
E não caiu. Assim que aterrissou, e parou no canto da pista, eu olhei pela janelinha, vi os outros aviões “estacionados” à beira da guia, olhei de volta pra dentro e pensei: Ah! É só um avião! Exatamente isso e nada mais. Era só um avião! O inferno em que afundei, na eternidade de 15 minutos, veio não sei de onde e foi não sei pra onde. Passou!
Mas, então, medo de quê?
A tentativa da psicanálise é o de dizer o não-dito, aquilo que não há como dizer porque não cabe em palavras. Mas mesmo assim precisa ser dito nem que seja para poder existir. Há áreas do saber onde não se sabe tudo de forma exata. Tirante as matemáticas, o restante é incerto como a vida. Foi a psicanálise que nos ensinou que todo ato falho é um discurso bem-sucedido. Assim sendo, por que deixaria de ser um discurso bem-sucedido o terror de síndrome do pânico?
Na síndrome do pânico, pior que o medo de morrer é o sentimento de estar prestes a enlouquecer, a empanicar. O termo pânico vem do grego, panikón, e pode ser traduzido livremente como “jeito de casino Pã”, o fauno da mitologia que barbarizava por onde passeava: deixava as pessoas caotizadas, catatônicas, esvaziadas de si mesmas.
A natureza tem horror ao vazio. Quando a gente não tem resposta, inventa uma. Há quem prenda o pássaro na gaiola para estudar a dinâmica do voo. Mas o pânico resiste a respostas, simplesmente, por se recusar a fazer perguntas. Claro que cada ciência vai puxar o cobertor por cima do próprio frio. Respostas aparecerão. Preferíveis são aquelas ancoradas no porto seguro da História. Os condicionantes históricos, muito mais que os determinantes biológicos ou psíquicos, dão o tom e a cor daquilo que vivemos.
Na História da sociedade ocidental, uma das coisas que mais chamam a atenção, no momento, é a crescente preocupação com a aparência física. Muitos se tornaram desesperadamente ansiosos por mínimos defeitos corporais, reais ou imaginários: o excesso de peso, o tamanho do busto, a perda de cabelo. Por aí vai. Em épocas anteriores, isso mal seria notado, menos ainda estaria entre os temas que provocasse ansiedade aguda. Mas hoje, vivemos a ditadura da forma. O conteúdo esvaziou. Sobrou a forma: do corpo, da casa, do carro…
O que o pânico tem a ver com isso?
Tem que, quando a sociedade contemporânea reduz as causas das ansiedades reais, como pragas, epidemias, guerras, escassez de alimentos, simultaneamente, há uma tendência a agravar as causas particulares de ansiedade. (Ninguém, por exemplo, fica doente em hora de jogo da Copa do Mundo. Os Prontos-Socorros ficam vazios!) Sem falar, claro, em todas as outras mazelas que assolam as sociedades modernas industrializadas: segurança de trabalho, saúde, padrões de consumo, performance sexual, nível sociocultural ou posição social, tudo o que tem sido os motores econômicos do estilo de vida das sociedades capitalistas, criando novos desejos em consumidores sempre insatisfeitos. Afinal, o IPhone 5 já caducou!
Os fatos só acontecem depois de serem inventados. Cada um cria o seu. Mão de afogado é cheia de mato. Na hora do perigo, a gente se agarra no que tiver perto. Na medida do possível, aumente o conhecimento. Quando ele aumenta, o medo diminui. Essa é a melhor opção em época de crise. Meu mundo pode se afogar, eu não. Se meu mundo cair, eu que aprenda a levitar.

Renato Lôbo
É psicanalista em São José
renato.lobo@ovale.com.br

Um governo sem roteiro

Quo Vadis? O que nos divide está ficando claro. O que nos une está ficando nebuloso. O Brasil perdeu o roteiro!
Este me parece ser o diagnóstico da nossa atual situação. A economia em recessão com o consequente aumento do desemprego, o profundo descrédito com a política e um agudo sentimento de falta de rumo. Passados 30 anos da nossa redemocratização e 27 aos da nova Constituição, há um claro sinal de esgotamento político.
Embora haja uma crescente descrença com a política nos principais países do mundo, o mesmo fenômeno que ocorre no Brasil parece ser um pouco mais sério.
Neste domingo estaremos vivenciando a quarta ida de brasileiros às ruas.
Na economia tivemos um breve crescimento entre 2004 e 2010 e o governo do PT acreditou (e difundiu essa crença) que era devido às “suas políticas econômicas” ao invés de outras causas que pouco dependiam do governo. Entre os fatores alheios ao governo e, portanto, sem relação direta com o partido que está no poder está a entrada da China na OMC (Organização Mundial do Comércio) e o brutal aumento dos preços das commodities.
O Brasil exportava para a China em torno de US$ 2 bilhões em 2002. Esse número saltou para US$ 43 bilhões (2% do PIB) em 2013.
Também podemos citar a forte diminuição da taxa de nascimento e o fim das grandes migrações como fatores alheios ao governo central.
É importante ficarmos atentos que, se o preço das commodities voltarem aos níveis pré 2002 (como quase sempre estiveram ao longo do século 20), o Brasil terá problemas muito maiores que os atuais.
Mas o pior problema do Brasil não é político ou econômico. O pior problema do Brasil é a falta de roteiro. Falta-nos alguém com credibilidade para apontar o fio da meada do roteiro; conduzir, sob o ponto de vista do Estado, a elaboração desse roteiro; e presidir as instituições para que o País não fique sem roteiro. Falta-nos, como já disse, um Chefe de Estado.
As soluções de “roteiro” até agora elencadas têm sido uma caricatura do que sempre propõem as elites: provisórias em vez de definitivas, acessórias ao invés de focar o principal e de forma ao invés de atingir o conteúdo.
Elas vão desde: “Que crise? Não existe crise! Isso é democrático”, passando por pedidos de impeachment, assun-ção do vice-presidente, assunção da oposição, Constituinte limitada (pós-julho/13), arremedo de reforma eleitoral, etc.
Precisamos de um roteiro e não de improvisações. Qualquer improvisação durará muito pouco tempo.
Qualquer que seja o roteiro deverá ser feito segundo o que o filósofo político John Rawls propôs como o princípio do “véu da ignorância”.
Segundo Rawls, ao se estabelecer uma regra, você não pode saber se ela te ajuda ou prejudica. Ou seja, você pode estar ora de um lado, ora de outro lado.
Qualquer reforma política-eleitoral deverá ser feita do ponto de vista do eleitor e não do eleito.
Para assegurar isso é necessário fazer uma transição para que a população eleja um Chefe de Estado.
Em 1984, fomos às ruas pedindo Diretas-Já para eleger o presidente do Brasil e conseguimos isso um pouco mais tarde.
De lá para cá há um claro esgotamento do presidente eleito ter também ao mesmo tempo o papel de Chefe de Estado. Temos tido presidente de governos e o Chefe de Estado sumiu porque ele é visto como pessoa não neutra.
É hora de elegermos o Chefe de Estado que seja respeitado por todos os que tenham poderes (democráticos) para debelar o desgaste destes para com o povo brasileiro.
Se tivéssemos um Chefe de Estado, as manifestações de julho de 2013 já teriam sido atendidas.
Quo Vadis? Para Onde Vais? Diante da atual situação essa é a pergunta que teima em calar fundo na alma de cada brasileiro. E a resposta me parece quase óbvia.
É necessário eleger um Chefe de Estado.

Uma árvore chamada adolescência

É difícil entender o adolescente. Mais difícil é atender. Às vezes, a família insiste. Por que, é claro, é sempre a família que insiste. Eles mesmos nunca nem querem nem precisam! O problema é que a família pode, quando muito, querer para eles, nunca, por eles. Já não são mais crianças. Certo! Mas ainda não são adultos. Pois é! Já começaram a querer o que querem. Ok! Mas ainda não sabem direito o que querer. Né!

 

A primeira pergunta é sempre o que se passa na família quando um filho vira adolescente?

 

Então… Família!

 

Família é um organismo vivo. Com brigas, discussões, vulcões, tsunamis, desbarrancamentos, alegrias, festas, contentamentos, mortes, nascimentos…Tudo isso e muito mais à mostra da vitalidade desse organismo, em suas nuances e mudanças, nas interpretações que são feitas para que tudo aconteça e nas leituras que são corrigidas depois que tudo acontece. Sem mencionar as dificuldades de mudar, a partir do momento em que os acontecimentos desabam, ou a facilidade com que se muda ou a mudança em si mesma. Família é que nem passarinho: troca de pena. Só que passarinho quando troca de pena, fica mudo, não canta. Família nem sempre!

 

Nesse canteiro familiar de emoções, brotam e crescem plantas novas, seres que mais tarde constituirão outras famílias. Nascem, crescem, adoecem, adolescem. As mudanças externas aparecem logo: o desengonço total de pernas e braços, as espinhas, ah, as espinhas. O que quase ninguém nota são as mudanças internas. Em cada adolescente caminha uma multidão, que provoca tumultos, como toda multidão, pelo simples fato de caminhar.

 

Há horas em que o pobre sujeito adolescente se sente perdido e atormentado por vozes que comentam e criticam, induzem, só para depois punir. E ele não sabe como conter os moradores do seu condomínio interior.

 

Ficaria mais fácil, se ele, adolescente, soubesse que ninguém nasce no dia que nasceu.

 

A gente nasceu muito antes de nascer. Nasceu no dia em que nossos pais se conheceram, no dia em que começaram a planejar que a gente viria, no sonho que tiveram a nosso respeito, no dia em que resolveram pintar o quarto sem saber direito a cor, no dia em que comunicaram para os mais próximos que estavam planejando uma certa vinda para online casino uma incerta data, no dia em que já sabiam que a nossa história mudaria completamente a deles. A história de qualquer um nasceu muito antes dele ter nascido. A gente só levou 40 semanas para chegar. Mas quando chegou, boa parte nossa já estava aqui, esperando por nós. Nossa história havia chegado antes.

 

Quando o adolescente se dá conta de que ele não apenas faz parte dessa história, mas ele é essa história, algo lhe salta por dentro. Aquele ser desconhecido que havia virado criança tornou-se obsoleto. Não serve mais. O novo ser desconhecido que agora salta cada vez que o espelho lhe passa em frente também se tornará obsoleto. Terá de se tornar. É sempre triste quando se torna. Mas é ainda mais triste quando não se torna. Sempre haverá um longo percurso: 3, 6, 9, 12, 15 anos. Ou mais! Parece que hoje a adolescência se espicha sem fim.

 

Nessa longa jornada, cheia de temores e tremores, descobertas e frustrações, amizades que vem e vão, perigos por todo lado, os candidatos a se tornarem gente mostrarão armas e estratégias que desenvolveram durante os primeiros longos 12 anos de vida, quando o mundo inteiro tinha as cores de um quarto de criança. Mas terão de mudá-las. Como se a mesma planta fosse replantada inúmeras vezes, para não morrer.

 

Adolescência é planta, já quase árvore.

 

Gosto de pensar que somente o que a gente planta nos dará sombra nos dias seguintes. Gosto também de pensar que a terra é boa. E que com cuidado e tempo e paciência e esperança e bondade e uma sadia loucura de sempre querer o bem, o arbusto adolescente se tornará árvore frondosa. E que se não houver frutos, valeu a beleza das flores. Se não houver flores, valeu a sombra das folhas. Se não houver folhas, valeu a intenção da semente.

Renato Lôbo
É psicanalista em São José dos Campos
renato.lobo@ovale.com.br

Nuvens cinzentas na política

Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou”. Esta frase atribuída ao ex-governador mineiro Magalhães Pinto não somente é verdadeira e corresponde aos fatos observados como também nos fornece um interessante ponto de interrogação: Por quê? Já se vivenciou e se ajustou tanto a política, já se estudou tanto a política através da sociologia, da ciência política e da história, então por que ela parece ser imponderável e imprevisível?
Essa questão sempre foi interessante para mim. Vivendo entre dois mundos, o da reflexão (por dever profissional) e o da ação (como prefeito, secretário, parlamentar), sempre procurei encontrar a racionalidade das coisas para agir de modo mais seguro.
Sempre que eu posso, eu leio sobre política, sociologia, história, filosofia, economia, etc, para balizar as minhas reflexões e orientar politicamente as ações.
Em quase toda literatura a que tive acesso há tentativas de mostrar que há “padrões” no movimento das nuvens políticas: desde as que tratam da trajetória inexorável da história, passando pelo positivismo até as análises estatísticas das pesquisas qualitativas e quantitativas do marketing político.
Porém, quando se acredita que se descobriu um “padrão”, aparece uma nova formação diferente de nuvens da política e essa descoberta cai por terra.
E aqui cabe uma outra pergunta. Não deveria ser diferente já que a menor unidade (digamos, o “átomo”) da política é o homem, esse ser que se quer racional e, portanto, previsível? A somatória das ações de seres racionais não deveria ser também racional e previsível?
Sei que as interpretações sobre “átomos”, racionalizações e somatórias são muito discutíveis e dariam uma infinidade de teses e teorias além das que já deram.
Porém, eu gostaria aqui de colocar a minha colher nessa cumbuca, sacando um aforismo de Nietzsche, do livro “Além do bem e do mal”: “A vontade de superar um afeto não é, em última análise, senão a vontade de um outro ou de vários afetos”.
Com base nessa afirmação de Nietzsche pode-se inferir que cada unidade (cada pessoa) tem um comportamento à medida em que os afetos vão sendo superados.
É como se a identidade dessa unidade mudasse com o tempo à medida em que os afetos vão superando uns aos outros.
Assim, se o comportamento sociológico já é complexo, dada a infinidade de interações entre as vontades dos atores e dos grupos de atores numa determinada sociedade, imagine-o com o aumento da complexidade advindo com essas vontades variando no tempo.
Desse modo, não somente os interesses gerais, mas também a composição dos grupos de interesse, varia com o tempo. Essas variações dependem dos ajustes de afetos ao longo do tempo.
Algumas vezes, dadas as circunstâncias históricas, alguns afetos entram em ressonância (vão se reforçando e se ampliando) e determinam rumos novos na política e na história.
Outras vezes, líderes com aguçado senso de análise constroem discursos que emulam afetos prontos a emergir que provocam ressonância num número grande de pessoas e, consequentemente, constroem novos rumos.
Em ambos os casos há essa ressonância. Como ela aparece ainda não é muito claro no primeiro caso. No segundo, é aquela história da “pessoa certa no lugar certo”…
Vou exemplificar com o que acompanhei ao longo de minha trajetória pública.
Em todas as pesquisas que tive acesso nesse período havia uma pergunta que mostrava os indícios de humor da população: “Em sua opinião você é a favor da continuidade ou da mudança?”
Note que não se trata da continuidade ou mudança do governante, mas sim de um estado de humor.
Ao longo desse tempo havia certa (pequena) preferência pela continuidade, a qual ia lentamente diminuindo.
Mas, nos anos recentes, o humor mudou de vez e o sentimento de continuidade despencou. Ou seja, alguns afetos ligados à mudança estão cada vez mais presentes.
E as nuvens estão bastante cinzentas.

Formação escolar e política

O curso CASD é um cursinho preparatório para vestibulares destinado a alunos oriundos de família com baixa renda per capita. Seus professores e diretores são alunos do ITA que numa memorável ação social propiciam aos seus alunos uma oportunidade de entrar nas grandes escolas públicas do país. Ele foi refundado em 1997/98 por alunos do ITA que me procuraram, quando era prefeito, solicitando ajuda.
A prefeitura ajudou e, de lá para cá, muitos jovens talentosos e esforçados realizaram seus sonhos de entrar em boas escolas.
É, com certeza, um dos melhores projetos sociais do Brasil. Ajudei a refundar o CASD baseado em minha experiência com o antigo CASD-Vestibulares da década de 1970, que ficava na Rua Rubião Júnior. Ali estudei e depois fui professor de álgebra e diretor.
Embora cobrasse mensalidades, seu custo era baixo e havia muitas bolsas de estudo, pois os professores (alunos do ITA) davam aula gratuitamente, como forma de ação social. O então prefeito Joaquim Bevilacqua ajudava a manter o cursinho numa época de crise quando eu era diretor.
Ele garantiu uma receita mensal suficiente para pagar aluguel do imóvel comprando bolsas de estudo para alunos carentes e funcionários da prefeitura.
Um tempo depois o CASD fechou devido à competição dos grandes cursinhos que se instalaram na cidade. Durante sua existência, o antigo curso CASD possibilitou que muitos alunos, eu entre eles, passassem nos principais vestibulares do país.
Ele era um grande instrumento de avanço social e o seu corpo dirigente e docente tinha uma visão concreta disso. Éramos um núcleo que queria ajudar a melhorar o Brasil, não só propiciando ensino de qualidade, mas também despertando o espírito crítico à época reprimido pelo regime militar. Esse núcleo era politizado e alguns dos então alunos acabaram exercendo posições de liderança ao longo da vida profissional.
Vou citar alguns com quem convivi quando fui aluno e depois professor do antigo curso do CASD Vestibulares.
O José Cechin que ocupou importantes cargos no governo federal e foi ministro da Previdência.
O Carlos Américo Pacheco que foi reitor do ITA e até recentemente exerceu o cargo de secretário-executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação.
O Dario Rais Lopes que foi secretário dos Transportes de São Paulo e hoje está no Ministério das Cidades.
O Carlos Henrique de Brito Cruz que foi reitor da Unicamp e presidente da FAPESP.
O Gilberto Câmara que foi diretor do INPE e eu, que acabei sendo prefeito de São José dos Campos e secretário de Estado da Habitação e de Planejamento em São Paulo.
Acredito que o CASD-Vestibulares, além do Centro Acadêmico (também chamado CASD) foram uma grande escola para o despertar do espírito publico desse núcleo.
Obviamente, vivíamos um outro tempo quando se formou esse núcleo político em torno do CASD e das próprias atividades do ITA.
Tínhamos um adversário claro, o regime militar, e o engajamento político podia ser considerado natural para enfrentar aquela situação de exceção às liberdades democráticas e de opressão a todos que se opunham à ditadura.
Hoje, apesar de vivermos em uma democracia, a política e seu exercício se tornaram sinônimos de coisa ruim, sempre mal vista pela sociedade.
As pessoas, e principalmente os jovens, estão muito desiludidos com a situação atual e acabam se afastando da política. Isso deve a vários fatores, como os casos de corrupção, o desgaste dos partidos políticos, entre outros problemas.
O desafio agora, portanto, é tentar superar esse desencantamento.
Acredito que o atual CASD possa continuar a propiciar oportunidade a alunos carentes, como vem fazendo com excelência em todos esses anos.
Mas também torço para que a instituição consiga retomar e promover a formação de núcleos politizados que ajudem a melhorar o país.
O Brasil agradece!